Os Véus Invisíveis da Percepção

Última atualização: 02/07/2022

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Do quê você tem medo?

Por quê você tem medo?

Como você lida com o medo?

Quando luz se cria, sombra se projeta. Para o claro existir, o escuro deve pareá-lo. Se não conhecêssemos dor e sofrimento, tampouco apreciaríamos prazer e felicidade. O contraste é necessário para discernir. A realidade é essencialmente dual, como o yin e o yang do Taoísmo.

Não é à toa que conselhos sérios, de psicólogos a terapeutas holísticos, apontam para a necessidade de lidar com nossos aspectos negativos, dores e feridas, em vez de ignorá-los. O “sucesso” no autoconhecimento, no desenvolvimento pessoal, profissional ou espiritual, depende disso. Equilíbrio.

Evitar o sofrimento é natural – ninguém gosta de sofrer não é? Mas criamos, sem perceber, um ciclo de sofrimentos desnecessários.

Nossa civilização se baseia no valor, utilidade e poder das coisas. Tudo associado à luz, prazer e alegria é “bom” e deve ser buscado; a sombra, a dor e a morte são “ruins” e devem ser evitadas, renegadas, ignoradas.

O problema não é evitar a dor. É agir como se ela não devesse existir. Celebramos o nascer, mas abominamos o morrer, sendo que ambos são naturais. Fingir que o fim não existe é pura ilusão.

Ao demonizar o “negativo”, nos desequilibramos, colocamos o outro lado no escuro e fingimos que, ignorando-o, ele deixará de nos afetar.

Reforçamos então o medo do desconhecido. Ao temer o que não conhecemos, perdemos a chance de aprender e encontrar coisas valiosas, e corremos o risco de permanecer em situações dolorosas só por receio de entrar em território novo.

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Esse medo cria muros e se projeta em tudo que ameaça nossas crenças ou nos tira da zona de conforto. Pior: é facilmente usado pelo sistema para nos controlar e manipular, alimentando autoritarismo, violência e paranoia.

Tratar o medo é curar raízes de muitos dos nossos problemas. É dissolver preconceitos, impedir violências, saber que está tudo bem em sentir receio e pedir ajuda. É sobre dialogar, abraçar, acolher.

Nossa autoconsciência e questionamentos sobre o pós-vida, por exemplo, são terreno fértil para medos e manipulação. Construímos vidas ao redor de crenças sobre a eternidade, ajustamos comportamentos para ganhar graças divinas, somos ensinados a temer forças superiores e a obedecer cegamente.

Tudo isso nasce do medo. Do medo do que virá, do sofrimento, do que não entendemos.

Para nos libertar, precisamos de um olhar crítico e acolhedor.

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Precisamos entender de onde vêm os receios, por que se enraizaram, em que contexto. Lembrar que o medo é natural, e sua ausência nem sempre é positiva. Acolher nossas reações instintivas, pois têm razão de existir e nos protegem.

Alguns medos são simples; outros, teias complexas. Precisamos respeitar nossos ritmos e limites para lidar com eles. Alimentar a confiança para enfrentá-los, sabendo que isso nos fará bem. E ter compreensão. Fobias muitas vezes são reflexo social, e a ajuda comunitária é um investimento coletivo no bem-estar de todes.


Que consigamos erguer os véus que limitam nossas percepções.

Original publicado em: 01/11/2022


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