Por dentro do Casulo

Última atualização: 01/07/2026

Cocoon by Krzyzanowski Art. Imagem que ilustrou o texto original nomeado “Casulo”, tempos atrás.

Eis que crio um amontoado de artes, e quando as conecto, percebo que suas conexões refletem a mim mesma nos últimos anos.”

Assim começa o texto que conecta as obras que associei ao tema “casulo”. Todas relacionadas, de alguma forma, ao sentimento de estagnação e sufocamento que venho carregando.

Para alguém que já sabia há tempos que arte reflete nosso interior, que vivia falando sobre seu potencial terapêutico… Ter sacado só agora que minhas próprias obras mostravam isso foi, no mínimo, ridículo.

Sabe aquela sensação de finalmente encontrar uma resposta, fazer o “clique” que te tira do atoleiro… e ao mesmo tempo ser algo tão óbvio, tão escancarado na sua cara?

Pois bem. Cá estou lidando com esse “eureca-dã” e arregaçando as mangas pra botar nos trilhos as respostas que eu já tinha e não sabia. Neste post, destrincho um pouco dos processos criativos por trás da obra múltipla “CASULO”.

Assim como muitos da minha geração, estou há anos lidando com crises externas e internas: dificuldades da vida adulta num caos econômico, insegurança sobre o futuro, pandemia, conflitos políticos e saúde mental feito trapo — depressão, ansiedade & afins.

Mesmo com privilégios, não consegui manter qualquer fluxo produtivo. Ciclos de inatividade, inspiração, frustração e desilusão foram me corroendo. Toda energia se direcionou a simplesmente me manter “de pé” e não me deixar levar pelo sentimento de cair fora do mundo.

Frame de “Implosion”, vídeo de 2020.

Ainda sigo “low-profile”, me apoiando na esperança de que as coisas melhorem. Mas agora tenho um norte. Enquanto busco entender minha situação mental e achar um profissional que me guie, me agarro no potencial que a arte tem de me ajudar a fortalecer as pernas e quebrar esse ciclo.

A principal “sacada” não foi sobre “a arte expressa e ajuda”, isso eu já sabia. Foi perceber que eu poderia costurar uma série de coisas que me interessavam, e cujos conflitos internos eram parte da estagnação, nessa ideia de “obra múltipla”.

Foi entender que o tal “Dharma Fusion”, que eu tentava desenvolver há anos, é uma forma de me expressar por diversas ferramentas de maneira coerente, sem ter que escolher uma e deixar as outras de lado. Foi compreender que eu poderia usar diferentes artes e conceitos para um objetivo comum: o autoconhecimento.

E, como já disse por aqui, essa é a chave pra entender nossos sofrimentos e dificuldades, e nos ajuda a juntar forças pra seguir em frente.

Uma das fotos editadas da make “Clausura”.

“Mas qual a diferença disso e simplesmente criar diferentes obras com o mesmo tema?”

Estrutura e direção. Intenção.

A arte oferece todo tipo de experiência: do êxtase ao nojo, da catarse emocional a informações enterradas no inconsciente. E notei que, no meu caso, buscava algo mais específico. Do jeito que estou construindo, posso experimentar todas as facetas, ou seja, expressar e extravasar, descobrir e compreender, desenvolver e transformar.

Ao longo dos anos, sempre na busca de entender como sair do ciclo estagnado, eu usava algum simbolismo pra descrever como me sentia. Era sempre algo similar: presa, dentro de um casulo ou ovo. Discorria análises simbólicas de que vivia um período de transmutação, metamorfose, incubação.

Isso me acalmava, a ideia de que eu precisava estar reclusa pra me tratar, me encontrar, me fortalecer. Como a lagarta, o passarinho ou o bebê.

Sempre parti do princípio de que, se você não está bem, as coisas ao redor refletem isso. Saúde mental impacta a produtividade tanto quanto uma doença física.

Porém, eu me sentia cada vez mais incomodada, agitada, querendo nascer de uma vez. E aqui se instaurou o conflito: não saber exatamente qual era meu estado, quando seria o momento de agir.

Me sentia presa, grande demais pra caber no ovo. Outra metáfora frequente: a cadeira com o prego. Você está ali, sofrendo, mas não consegue levantar.

“Shell”, edição artística.
Foto da performance “Isa”, 2018, por Fernando Espinosa.

O combustível do conflito era a dúvida. Estaria pronta pra (re)nascer? Deveria quebrar a casca e sair voando? Por que não conseguia? Estaria pronta, mas com medo? Ou ainda imatura, sendo forçada a um nascimento prematuro?

Ter conhecimento sobre psicologia me fazia pensar em todas as possibilidades. O medo é paralisante, sim, e eventualmente precisamos encarar o mundo. Mas a sociedade também não se importa com seu bem-estar, só com seu valor produtivo. Vimos isso na pandemia: pessoas morrendo, mas “a economia não pode parar”.

E eu seguia estagnada. Por medo, dúvida, necessidade, falta de energia.

Depois do insight, reuni criações que giravam em torno desses simbolismos. Obras antigas, fotos, ideias fervilhando, tanto que possivelmente criarei mais coisas nesse tema. Afinal, a vida é um processo, e as sacadas não curaram magicamente minha depressão.

“Implosion” (vídeo, 2020) – criado no auge das crises, reflete o sufocamento, a paralisia, o peso do mundo me esmagando.

“Shell” – uma das primeiras ideias pra ilustrar o casulo. A foto original insistia na minha cabeça. Junto com “Novelo”, foram minhas primeiras experimentações com edição de fotos.

“Freedom of thought”, by psyca_art-db64ljt. Ilustrou o post original intitulado “Prisão de Nós Mesmos”, tempos atrás.

“Asfixia” – imagem que também me acompanhava há tempos: o busto sem rosto, um olho na garganta, coberto de amarras. Aproveitei pra desenferrujar minha arte visual, há tempos abandonada, e experimentar com arte digital. Simples, mas é um começo.

“Clausura” – mix de maquiagem e edição. Inicialmente, só a representação de um casulo escuro no centro do rosto. Durante a execução, senti o ímpeto de inserir um núcleo dourado, e depois um segundo centro, vermelho.

Cada obra partiu de uma ideia prévia, mas também foi fluida e espontânea. Até hoje as contemplo sem entender totalmente. O centro dourado se liga à luz interior, o brilho valioso que temos, e que também aparece no final, em “Silk”. O miolo vermelho, desconfio, são feridas ainda profundas.

“Ressignificado” – foto de um cinturão que produzi, reciclagem de um velho cinto com estampa de serpente. Representa a costura e a ciclicidade positiva: transformar algo velho em novo. A troca de pele da cobra, renovação necessária.

Frame de “Silk”.

“Silk” – a obra que mais destoa, mas é de grande importância. Representa o conteúdo dentro do casulo, o tesouro sendo nutrido. A face positiva da inércia: autocuidado, autocompreensão, autocompaixão. A necessidade do tempo, o preparo do nascimento. Ver nossa beleza e potencial mesmo nos tempos de nigredo.

“Prisão de Nós Mesmos” – título do antigo post, resgatado porque a frase sempre me soou interessante. Nomeia o texto que expõe as obras e representa a arte da escrita, brincando com fluxos diversos de palavras e narrativas.

E assim nasceu “CASULO” e, oficialmente, meu laboratório experimental “Dharma Fusion”. A arte de dar voz às variadas faces de você mesmo, guiado por associações pessoais e universais dos símbolos da existência.

A arte da capa, sem nome, foi uma experimentação de “colagem digital”. As imagens originais você pode conferir aqui: o rosto, a flor e a borboleta.

Original publicado em 11/10/2022


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