Última atualização: 02/07/2026

Nosso corpo é um veículo de expressão, frequentemente inconsciente e de natureza não-verbal. O que ele “fala” não passa por códigos racionais ou narrativos, como fazemos com a língua escrita ou falada.
Não confundam com a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais): apesar de usar o corpo e gestos, é uma transliteração da linguagem verbal, com estrutura narrativa e codificação aprendida.
A ênfase aqui é o território fora dessa área racional.
Para exemplificar: imagine uma pessoa de outro país, que não fala sua língua, que está com fome. Ela chama tua atenção, aponta para si, depois para a boca aberta, e esfrega a barriga. Você entende o código “eu + boca + barriga = eu quero comer, estou com fome”. É um entendimento racional.
Agora imagine que você olha para ela e vê uma pessoa levemente recurvada, mão na barriga, olhar fixo em algum alimento, língua lambendo os lábios. Você também entende que ela está com fome, mas sem estrutura de “sujeito + verbo + objeto”. Apenas percebe, por outros tipos de sinais.
É essa linguagem corporal mais inconsciente que me interessa aqui. Está presente o tempo todo, dos gestos cotidianos aos mais elaborados, e é um canal de grande vazão emocional. É preciso muito esforço e vigilância para impedir que o corpo transpareça o que sentimos ou pensamos.
No dia-a-dia, se prestarmos atenção, veremos como nosso corpo está, como se comporta, reage, sente. Há aspectos universais, mas cada pessoa tem seu “dialeto corporal” único.
Por exemplo: medo, preocupação ou ansiedade geram músculos retesados, mãos frias, coração e respiração acelerados, tremores, postura retraída, mente em alerta, dificuldade de foco, dores de barriga, náuseas, insônia ou perda de apetite. Em maior ou menor grau, e sempre com exceções (como aumento do apetite).

Já no caso da alegria e tranquilidade: corpo relaxado, respiração calma, postura aberta e convidativa, concentração fluida, apetite e sono restauradores. O corpo reflete a paz da mente.
Nosso estado mental, emocional e personalidade sempre se refletem no corpo. Isso inclui a somatização, em casos extremos, quando a mente está perturbada por conflitos e feridas. O sistema imune também reage aos nossos estados internos.
Observar a linguagem corporal, reações viscerais, sintomas físicos e nossa relação com o corpo é uma forma riquíssima de autoanálise. Ao aprender como funcionamos, podemos buscar com mais consciência formas de expressar e extravasar o que está somatizando em sofrimento.

Isso traz benefícios para a saúde física e mental, e também melhora nossa comunicação e relação com os outros. Porque as pessoas reagem, consciente ou inconscientemente, à forma como nos apresentamos e expressamos. Você já deve ter visto cursos ou palestras sobre postura e confiança: tudo isso é baseado nessa linguagem.
Usando a fala como analogia: nosso corpo é o alfabeto que usamos para expressar questões inconscientes, instintivas e emocionais. Temos nossa “letra do dia a dia”, mas podemos também elaborar nossa caligrafia, ou fluir em “rabiscos” aleatórios.
Eis a forma como trabalho com movimento e dança. Gosto de explorar o que crio e o que sinto na dança, com o explorar de movimentos livres e improvisados, ou direcionados e coreografados, com música ou leitura expressiva.
Tudo isso pode ser feito de forma espontânea, sem técnica. Mas aprender um estilo de dança expande suas possibilidades de expressão corporal, e te dá mais “letras” para o seu alfabeto pessoal. No meu caso, foi a Dança do Ventre e o Fusion Bellydance. 🙂
Original publicado em: 09/11/2022
