Mandalas: um caminho para o Self

Foto de Frames For Your Heart na Unsplash

Do sânscrito, a palavra “mandala” significa “círculo”, mas reduzi-la a uma forma geométrica seria reduzir o mar a um copo de água. Desde tempos mais remotos, em culturas que jamais se comunicaram entre si, o ser humano vem desenhando formas circulares com um centro irradiador.

No Tibet, monges constroem mandalas de areia colorida com precisão milimétrica e, ao final do ritual, as destroem. É a prática pra lidar com a impermanência, conceito que diz que tudo é passageiro.

No hinduísmo, o círculo delimita o espaço sagrado, protegido do caos ao redor. Nos vitrais góticos, as rosáceas das catedrais repetem o mesmo gesto: um centro que organiza tudo à sua volta. Nos padrões da arte islâmica, nas cestarias indígenas, nos jardins zen, nas pinturas rituais de povos que nunca se conheceram… o círculo com um centro reaparece, como se algo na psique humana quisesse se manifestar.

Foi essa insistência que chamou a atenção de Carl G. Jung. A partir de 1916, em meio à sua própria confrontação com o inconsciente, ele começou a desenhar mandalas espontaneamente, e percebeu que não estava sozinho: seus pacientes, em momentos de desintegração psíquica, também produziam círculos com centro sem qualquer instrução para isso.

Jung compreendeu que não se tratava de coincidência estética, mas da manifestação de um arquétipo universal: a imagem da totalidade psíquica, o Self. A mandala, pra ele, não era apenas expressão de um estado, era anúncio de um movimento de cura, a psique tentando se reorganizar em torno de um centro, espontaneamente.

Outro caso que adoro comentar: em 1954, a psiquiatra brasileira Nise da Silveira notou que diversos de seus pacientes esquizofrênicos pintavam mandalas, sem que ninguém tivesse pedido.

Foto de Stan Tuladhar na Unsplash

Ela reconheceu ali algo que havia lido nos livros de Jung e, apesar do ceticismo dos colegas, enviou uma carta e fotografias pra ele, que reconheceu imediatamente o processo compensatório das mandalas em uma mente caótica. Isso tudo sublinhou ainda mais a visão de que a psique tem mecanismos de autocura.

O que a mandala carrega, simbolicamente, é justamente essa tensão entre ordem e espontaneidade. O círculo fala de totalidade, proteção, continuidade, tempo cíclico, espaço sagrado delimitado. O centro, por sua vez, aponta para o Self, o eixo em torno do qual a psique se organiza. Mas na arteterapia junguiana o significado não é fixo, nem universal: uma cor, uma forma, um vazio só significam o que significam pra aquela pessoa, naquele momento. O produto final importa menos que o processo: a mandala é um registro de um instante psíquico, não uma obra a ser julgada esteticamente.

Mas como olhar para uma mandala e interpretá-la? Na autoanálise, ou no contexto terapêutico, “o que a mandala quer dizer” vem através da relação e do processo: preenche tudo ou deixa vazio? As formas partem do centro pra fora ou vêm de fora pro centro? Há rupturas, excessos, repetições? Ultrapassa as bordas? O que emerge no corpo durante o processo?

Foto de Logan Voss na Unsplash

E talvez a pergunta mais simples seja também a mais reveladora: há centro?

Parece uma pergunta besta, afinal, toda mandala não tem um centro? Mas a questão é: quando você olha para a sua mandala, ou para a de outra pessoa… você está olhando pra uma organização psíquica específica. É sobre o seu cerne, sua âncora, a dinâmica de organização. Não há regras sobre como uma mandala deve ser.

E se tudo está disperso? E se há mais de um centro? E se o centro está deslocado? Ou se há um centro sem nada nele? Ou se a mandala está incompleta, pela metade, ou não cabe na folha?

Nada disso indica um problema. Uma mandala “atípica” apenas mostra uma organização psíquica fora do que seria o esperado, e, pessoalmente, não acredito que exista uma obrigatoriedade em se alcançar a “perfeição” na totalidade. Se a jornada da pessoa indicar que deve buscar um “centro único”, aí é algo particular de cada um.

Aqui cabe uma distinção cuidadosa. Se lermos a mandala apenas como “busca de um centro único e simétrico”, corremos o risco de transformar a teoria em norma: toda mandala saudável teria um centro; toda mandala com dois centros ou sem simetria perfeita estaria “errada”. Isso seria um erro. Jung nunca disse que a mandala precisa ser simétrica para ser expressão do Self. Ele disse que a mandala é a expressão do Self, e o Self se manifesta como pode, na forma que a psique de cada pessoa consegue produzir naquele momento.

Foto de Swati H. Das na Unsplash

Uma mandala assimétrica, bilateral, pela metade, com dois ou mais centros, ou que transborda a folha, não indica falha de organização. Indica que a organização está acontecendo em outra geometria. Uma geometria que não é a do círculo perfeito, mas a de uma psique que se organiza de outro jeito. Talvez em polos espelhados. Talvez em pluralidade. Talvez em algo que ainda não tem nome.

O conflito, portanto, não está na mandala assimétrica. Está na leitura normativa que fazemos dela. A tradição junguiana às vezes escorrega para uma estética da simetria, como se o círculo perfeito fosse o único símbolo válido de integração. Mas se a mandala é processo de organização interna, então qualquer forma que organize é mandala. A pergunta não é “ela é simétrica?”, mas “ela está organizando algo?”. E se está, mesmo que de um jeito torto, então ela está fazendo o trabalho que a mandala faz. É uma mandala fiel a uma psique que não se organiza em torno de um único eixo, e que, ainda assim, se organiza.

Foto de Mayank Baranwal na Unsplash

Há muitos anos, desenhei uma mandala “estranha”, se fôssemos assumir que elas têm uma “arquitetura obrigatória”. Ela tem dois centros. Bilateral. Assimétrica. Não cabia na folha. E, olhando para ela hoje, percebo que ela “sabia” algo sobre mim que eu ainda não fazia ideia: minha fragmentação interna, minha organização atípica.

Você já pode vê-la na capa do site, mas irei trazê-la por inteiro no próximo post! Vou mostrar alguns trabalhos que fiz com mandalas ao longo dos anos, e minhas impressões sobre esse processo. 🙂


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