No post passado, apresentei a vivência “Linha da Vida” como uma ferramenta de autoanálise, um convite pra mergulharmos no passado a fim de entender o que nos constitui. Hoje, 14/08, ao completar 37 anos, nada mais justo do que pegar o meu próprio fio e tecer um pouco dessa história para vocês.
Então, este post tem dois propósitos: servir como um exemplo prático de como podemos organizar e narrar a nossa própria história, e também como uma “breve porém densa” apresentação, pra que vocês entendam um pouco mais quem é a pessoa por trás dos textos e da arte. E com títulos poéticos, porque eu adoro hehe. 😉
Bora lá!
Tecendo o passado
Essa atividade é “especialmente especial” para mim por um motivo muito particular: amnésia dissociativa. Tenho uma dificuldade imensa em acessar memórias autobiográficas (mah a semântica tá funcional hehe). Por isso, revisitar minha própria linha é sempre uma (re)descoberta.
Os títulos que escolhi são recortes, pequenas janelas das fases que vivi. Mas lembrem-se: na vivência, quanto mais esmiuçarmos os detalhes, mais rica é a experiência. Aqui, traço um panorama, que inclusive usarei de base pra criar cadernos com colagens e outras coisas mais.
A Estranha Semente – infância

Filha única, meu nascimento já foi um auê, nasci atrasada e murcha. Ainda assim, era grande (maior que a média de meninos da época!) e, para a surpresa do obstetra, menina. Ana. Uma Ana sem segundo nome. 🙂
Cresci no meu próprio mundinho, focada em desenhos, gibis, filmes da Disney que assistia repetidamente sem cansar, e os carrinhos de Kinder Ovo que meu pai me dava, que eu preferia às bonecas. Na escola, eu era basicamente um moleque, subindo em árvores e brincando de pega-pega com os meninos, mas ao mesmo tempo com um amor por roupas femininas esdrúxulas, coloridas e cheias de estampa de bichos. Uma perua em miniatura.
Perdi meu pai, botânico e professor da UFRGS, num acidente de carro quando tinha 6 anos. Minha mãe foi professora de matemática na rede estadual. Sempre fui muito bem na escola, mal estudava. Até a puberdade chegar, aí as notas deram uma piorada (exceto biologia!). Fora isso, fiz 7 anos de Ballet, com um pouco de Jazz e Sapateado, mas nunca fui fissurada. Nunca tive videogame, mas ganhei um computador (aqueles de tubo) bem cedo, e adorava joguinhos casuais.
Bestiário Interior – adolescência
Tive uma adolescência tranquila, não ia em baladas. Meus amigos eram caseiros que nem eu. No ensino médio, a rotina de acordar cedo para estudar na cidade vizinha me rendeu muitas sonecas durante as aulas. Quando acordada, geralmente estava desenhando: tenho uma pasta cheia de criaturas fantásticas que ainda guardo com muito carinho.
Foi a era da “Internet discada”, dos chats do UOL e blogs com gifs gliterinados. Pela TV (Globinho!), conheci Sakura Card Captors e meu amor por animes. Embora tenha crescido ouvindo clássicos da MPB, foi bater a puberdade que PÁ Ana rockeira tarada por Aerosmith.

Ouvia várias bandas de rock gringas, e ao longo do tempo, fui migrando pro metal sinfônico (Nightwish, Epica), metal eletrônico (Rammstein), folk/metal folk (Faun, Wardruna, In Extremo) e a subcultura gótica (BlutEngel <3), que me identifico até hoje.
Eu era a “esquisitona do rolê”, e adorava quando me chamavam de estranha. Sempre gostei de ser weird, o que certamente me poupou de muito bullying.
Anatomia do Invisível – graduação

Passei no vestibular da UFRGS na segunda tentativa, aos 17. Sempre amei animais e documentários, então Ciências Biológicas foi um caminho natural. Hoje, vejo que essa escolha também foi uma forma de lidar com questões paternas, mesmo tendo seguido um caminho diferente do dele. Mas nossos históricos escolares são virtualmente idênticos. :O
A graduação foi um período fértil, onde construí as poucas amizades que levo até hoje. E, paralelamente, a semente da psicologia junguiana já germinava, com meu fascínio por sonhos, símbolos e comportamento. Joguei muito Skyrim nesse período também. hehe
Ossos e Sigilos – mestrado
Ainda na graduação, caí de paraquedas na paleontologia, meu grande amor acadêmico. Tive a sorte de participar de um artigo na Science (limpei o fóssil e fiz os desenhos técnicos do Tiarajudens eccentricus <3). Meu TCC e Mestrado foram nessa área.
Enquanto olhava para o tempo profundo da Terra, também olhava para o universo e a espiritualidade, bebendo do Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, e experimentando com o esoterismo e a Magia do Caos.

Ritmo e Tecelagem – dança & corpo

No fim da graduação, a Dança do Ventre, o (Tribal) Fusion e o Yoga entraram na minha vida e me roubaram o coração. Aqui nascia Anath Nagendra. O encantamento foi tão grande que não segui pro doutorado, e me dediquei ao corpo, me tornando professora de dança e yoga. Ouvia muita música árabe e world music. Paralelamente, nasceu meu lado costureira e artesã, criando figurinos para mim e para o grupo em que dançava.
The Hourglass Oasis – saúde mental & descobertas
Aos 27, 28 anos, a vida começou a pesar. A dança não deslanchava, as finanças apertaram e a saúde mental (minha e da família) pediu socorro. Um período de estresse extremo, somado à pandemia, me levou a um quadro severo de ansiedade e depressão, beirando o colapso. Senti o “chamado de desviver”, e por um triz não me deixei levar. O jogo Genshin Impact foi uma das coisas que me ajudaram a me manter de pé.
Foi nesse mergulho no meu próprio sofrimento que meu interesse por saúde mental se aprofundou. E foi aí que a vida virou do avesso: aos 30, descobri o TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade). Aos 34, o Autismo nível 1 e a superdotação. Um turbilhão de respostas que, finalmente, explicavam a minha “estranheza” e bizarrices que vivia, e me deram um novo mapa para navegar a existência.

Curadora de Labirintos – terapeuta

Antes mesmo dos diagnósticos, já sentia a necessidade de unir arte e autoconhecimento. Foi assim que nasceu o projeto “Dharma Fusion”, uma forma de explorar a criatividade e a expressão além da dança. Essa busca me levou à pós-graduação em Arteterapia junguiana, que abraçou meu amor por Jung, arte e saúde mental. Foi ali que entendi que o Dharma Fusion sempre foi uma forma de arteterapia. Agora, como terapeuta formada, posso enraizar esse projeto com a propriedade que ele merece.
Laboratório Multifacetado – artista
Hoje, sigo estudando e amadurecendo minha profissão, me especializando aos poucos em traumas complexos, enquanto direciono um olhar mais consciente para o meu “eu artista”. Quero explorar a expressão artística em todas as suas formas, para além do corpo. Quem sabe uma graduação em Artes não vem por aí?
Quimera Mnemosyne
E cá estou eu, tecendo os 37 fios da minha linha da vida, com um novo nome artístico que reflete mais fielmente a minha essência. E aprendendo mandarim! Meu nome chinês é 蓝安娜!

Olhando para trás, vejo uma tapeçaria rica em padrões: a busca pelo conhecimento, o fascínio pelo simbólico e pelo profundo, a resiliência diante das sombras e, acima de tudo, a arte como fio condutor.
A biologia e paleontologia me trouxeram uma visão ampla de como a vida e o universo funcionam. A psicologia analítica e o esoterismo me deram a percepção da mente humana e a construção da minha própria espiritualidade, livre de convenções. As dificuldades da vida desenvolveram minha empatia e maturidade pra exercer minha profissão. E a arte é o que move o meu coração.
Cada título, cada fase, me trouxe até aqui. As memórias podem ser elusivas, mas a sensação de fluxo, de estar no caminho certo, é cada vez mais clara. E, se há algo que este exercício me ensina, é que a vida não é uma linha reta, mas um emaranhado de fios que se cruzam, se rompem e se reconectam o tempo todo.
A Linha da Vida é um convite para olharmos para nossa própria tapeçaria com compaixão e curiosidade. E você, como tem tecido a sua história?
