O que há por trás da máscara?

No post anterior, sugeri um exercício de autoanálise pra você explorar suas características. A proposta era: escreva sobre você como se fosse outra pessoa descrevendo alguém. Contemple qualidades, defeitos, gostos, desgostos, talentos, limites, memórias… e o quanto essas características refletem seu interior ou não.

Ilustração de maulana ahmad no Unsplash

Poderíamos dizer que todas as nossas características são como máscaras que usamos pra interagir com o mundo.

Usar uma máscara não é algo ruim, mas é interessante analisar quais são as nossas e que função elas têm. Normalmente, agimos de um jeito ou de outro, dependendo do contexto: no trabalho somos sérios e focados; na roda de amigos, talvez sejamos tudo aquilo que não ousamos mostrar no ambiente corporativo. Agimos diferente com pais, parceiros, colegas, avós.

Esses “ajustes” são máscaras. É fácil imaginar uma máscara num ator que muda totalmente pra viver um personagem, mas é mais difícil perceber que, quando ele volta a ser “ele mesmo”, isso também é uma máscara.

“Então você tá dizendo que tudo é falso? Como algo autêntico do meu ser seria uma máscara?”

Aí é que tá: estamos acostumados a pensar em máscaras apenas como algo que esconde, algo falso, algo que não deve ser confiado. Mas quero propor uma visão mais ampla: toda a nossa interação e expressão com e no mundo depende do uso de máscaras.

Porque o nosso Ser, o Self, o Eu com maiúscula, é algo que somente você tem acesso. Ninguém mais. Não é possível “ver” a essência do outro. É como se fosse algo invisível, que se torna visível quando veste uma roupa. Essa roupa pode ser chamada de máscara. 🙂

“Mas nós temos aspectos verdadeiros! Reais! Que serão revelados quando se tiram as máscaras!”

Ok, mas… quais seriam esses aspectos? O que sobra quando você retira todas as máscaras?

Quem é você?

Parece besta, mas veja bem: o que você É é algo que não muda nunca, sua essência, aquilo que permanece constante em qualquer ponto da vida. Alguma coisa que você escreveu ou refletiu é a resposta?

Dica: se pode ser mudado, não é você.

Nomes podem ser trocados. O corpo está em constante mudança. Interesses, preferências e opiniões são flutuantes. Características da personalidade são desenvolvidas e podem ser treinadas. Você, como um todo, está em constante mudança a vida inteira.

O que sobra?

Se tudo parece estar atrelado a você… o que é esse “você”, esse “eu” que está lendo?

Ilustração de maulana ahmad no Unsplash

“Mas eu sempre fui X desde pequeno, nunca mudou! Esse é meu eu verdadeiro.”

Nope. Qualquer característica sua pode ser modificada. Se nunca mudou, é porque nunca precisou. Mesmo aquele aspecto que parece impossível, resistente, estático… pode ser alterado.

“Ah, mas o DNA não pode!”

Tem certeza? Hoje em dia já é possível editar genomas. E muitas informações genéticas “fixas” podem ser influenciadas por fatores ambientais – altura, por exemplo. Mutações. Enfim.

Mas isso tudo é o corpo biológico. Que, na minha visão, é uma projeção do seu Ser, não ele per se. E aqui chegamos ao ponto central: a resposta pra “o que sobra?” vai depender do seu sistema de crenças espirituais. Pode chamar de Consciência, Alma, Espírito, Luz Interior…

Esse “algo” que não sabemos bem como nomear é você. Seu Ser, sua Luz. As máscaras são o que, no meio junguiano, chamamos de Persona.

Foto de Vlad Hilitanu na Unsplash

Carl G. Jung usa o conceito de Persona como uma função necessária da psique, especialmente pra interação social. Isso inclui até as características que internalizamos e com as quais nos identificamos: os papéis que atuamos na sociedade.

Mas nem tudo é sobre Self e Persona. Existem inúmeras características que não desenvolvemos ou que reprimimos, e isso forma o que Jung chamou de Sombra. E na Psicologia Analítica temos ainda Ego, Complexos, Anima/Animus, Consciente e Inconsciente, Inconsciente Coletivo… mas isso fica pra posts futuros. 😉

Por hoje, deixo esse aprofundamento do primeiro exercício. “Só”. hehehe.


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