Afinal, o que é ‘arquétipo’?

Foto de Дмитрий Хрусталев-Григорьев na Unsplash

Última atualização: 02/07/2026

OLAR!

Você já deve ter topado com esse termo por aí, em variados cenários, com todo tipo de explicação. Mas, a menos que seja estudioso do assunto, talvez não tenha entendido direito o que diabos é isso.

Seus problemas acabaram! 😀

Hoje, vou explicar de uma maneira mais digerível algo que, na real, não tem como ser “visto”. Mas esteja ciente: isso reflete como eu compreendo o assunto, com a imagética que faz mais sentido pra mim.

Vamos lá.

O que é um arquétipo?

Arquétipo se refere a algo ao qual não temos acesso direto. É a forma mais básica de algo, a origem, a totalidade e soma de todas as partes, aquilo a partir do qual algo se manifesta de inúmeras maneiras. O termo foi popularizado por Carl Jung na Psicologia Analítica, mas existe desde pelo menos Platão.

Vou começar com uma explicação mais simples e reducionista, e depois mostrar a metáfora que prefiro, que acredito descrever o conceito de maneira mais fiel. E, pra fechar, falo um pouquinho do porquê isso é útil na jornada de autoconhecimento.

Foto de Joshua Fuller na Unsplash

A F(ô)rma de Bolo

(Aviso: usarei acentos para diferenciar “fôrma” de “fórma”.)

Um bolo pode ter muitas configurações. Geralmente doce, mas pode ser salgado. Com camadas ou só cobertura. Úmido, seco, colorido, homogêneo. Decorado, esculpido, ou só um lanche de caneca. Se eu pedir a uma multidão “imagine um bolo”, ninguém terá a mesma imagem. Cada um pensará no sabor favorito, numa ocasião especial, ou em algum “bolo” que levaram de alguém. :p

Mas todo bolo vem de uma fôrma. Agora imagine que exista uma da qual absolutamente todos os bolos são feitos. Metaforicamente, ela é o arquétipo do bolo, a origem de todas as manifestações possíveis desse alimento. Claro, na realidade, fôrmas não podem representar um arquétipo, pois elas mesmas podem ter muitas fórmas. E se podem ter muitas fórmas, não podem ser um arquétipo, por definição.

Foto de Susan Wilkinson na Unsplash

Essa analogia é uma introdução simples à noção de algo “original” a partir do qual toda uma “categoria” surge. Há o arquétipo do bolo, do cavalo, da cadeira, do ser humano, da amizade, da árvore, do oceano, do rio, do rei, do filho, da montanha, do vento, do olho, do pé, da aventura, da morte, da risada, da irmã, da destruição, da vitória, do amor, do gênero, da narrativa… o céu é o limite. Ou melhor: não há limites.

Entretanto, como um arquétipo engloba TODAS as manifestações possíveis de algo, nossa mente é incapaz de gerar uma imagem ou descrição direta. Qualquer tentativa será apenas um exemplo, uma das muitas fórmas de manifestação, não o arquétipo em si.

Por exemplo: a fôrma de bolo pode ser redonda, triangular, grande, pequena, rasa, funda. Não dá pra desenhar a “fôrma arquetípica”. Daí a necessidade da metáfora, pra conseguirmos observar esse conceito na realidade, na vida, no mundo.

Arquétipos são padrões

Padrões que se manifestam em todos os níveis da realidade. Nós, criaturas curiosas e pensantes, organizamos isso em conjuntos de características interconectadas, damos um nome e, muitas vezes, um rosto. Deuses, por exemplo, são arquétipos personificados.

Mas é importante frisar: esses padrões não são rígidos nem limitados, e nossa percepção deles pode variar. Sempre há exceções, e regras são criadas culturalmente. Além disso, tudo pode ser subjetivo e amarrado a referências pessoais e temporais. Por isso, é bom ter uma noção de como esse conceito funciona. Do contrário, corremos o risco de ficar engessados em listas genéricas que podem, ou não, incluir o que vivemos.

A Esfera Potencial

Ao longo dos anos, experimentei com diversas metáforas visuais tentando ilustrar a essência desse conceito. Cá está minha favorita:

Metáfora visual de um arquétipo, criada por mim, editada a partir da esfera poligonal baixada do site Shutterstock.

Essa esfera é a metáfora visual do que chamo de unidade arquetípica. O centro (em magenta) representa a essência que não podemos ver diretamente, e que se projeta em cada faceta da “casca”, que é o que percebemos. Cada polígono é uma expressão diferente do arquétipo, e o conjunto de faces representa todas as suas manifestações possíveis.

Aplicando na metáfora anterior: o centro é o arquétipo do bolo; cada face é um tipo de bolo; a esfera contém todas as formas possíveis.

E dá pra ir além. Quem gosta de mitologia já percebeu que muitas coisas se repetem na história dos povos. Essas repetições ilustram conexões arquetípicas que emergem em tradições locais sem contato prévio, foi o que levou Jung ao conceito de inconsciente coletivo.

Exemplo: existem diversos deuses associados ao reinado e autoridade; ao submundo e morte; ao amor e fertilidade; à colheita e ciclos; à guerra e destruição. Há diferenças entre eles, mas a semelhança em funções, características e comportamentos revela um cerne em comum. Uma essência. Um arquétipo.

(O canal CrashCourse no YouTube tem uma playlist ótima sobre mitologia comparada, com legendas em português!)

O papel do arquétipo na individuação

Ok, legal. Mas qual a utilidade disso?

De maneira geral, você já está em constante contato com situações que usam arquétipos como base. Artistas (especialmente escritores) usam isso pra construir personagens. Empresas usam testes de personalidade. Muita gente faz julgamentos por signos. Em todos esses casos, estão usando padrões potenciais de comportamento.

Num contexto de autoconhecimento, arquétipos podem ser tanto fonte de informação quanto ferramenta vivencial.

Foto de Alice Yamamura na Unsplash

Podemos descobrir que nosso comportamento se parece com determinado padrão e refinar nossa percepção. Que nossa vida tem excesso de uma energia específica e buscar equilíbrio. Ou ainda, nos permitir vivenciar arquétipos que parecem alienígenas ao nosso ser.

No Processo de Individuação, que nos leva a querer nos tornar mais completos, é essencial ter consciência do que está exagerado e do que foi negligenciado. Descobrir os arquétipos mais presentes na nossa vida ajuda a entender tendências e nos dá um norte sobre o que buscar para atingir equilíbrio, o que certamente se manifestará em todas as esferas da vida.

E é por isso que arquétipo é uma ferramenta central nas experimentações do meu Laboratório: permite trazer temas e assuntos com facilidade e potencial criativo para vivenciá-los.

Vem comigo experimentar!

Original publicado em: 13/06/2023


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