
Olhar-se num espelho costuma ser um símbolo de individualidade, afinal, é a nossa imagem pessoal ali refletida. Mas e se eu te disser que podemos descobrir muito não só sobre nós mesmos, mas também sobre o mundo em que vivemos, ao observar as nossas reações ao que está ali refletido?
Vem comigo que eu explico.
Quando nos olhamos num espelho, temos uma visão do nosso corpo e aparência, da nossa postura, das roupas que usamos, da expressão que fazemos, das marcas do tempo. Esse reflexo nos passa uma série de informações, de maneira consciente e inconsciente também, e reagimos a isso.
É observando essas reações e percepções que podemos entender melhor a nossa relação com a autoimagem e também o estado da autoestima. Mas para podermos aprofundar o nosso autoconhecimento e melhorar a autoconfiança, precisamos entender como tudo isso se constroi na nossa cabeça – e como isso é um resultado coletivo e que não depende totalmente de você.
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Na nossa atual sociedade é comum ouvir discursos que colocam 100% da responsabilidade da mudança e sucesso nas suas costas, como “só você é capaz de mudar a sua vida”, “tudo é possível tendo força de vontade”, ou ainda “você é o único responsável pelas suas ações”. Dessa forma, ao fracassar, a culpa fica restrita a nós mesmos e não temos como reclamar.
Isso faz com que toda a nossa atenção seja direcionada para tentar nos “consertar” ou adequar ao que acreditamos ser a solução para os nossos problemas, e assim não questionamos o sistema em que crescemos e que nos moldou – e que carrega uma boa parte das responsabilidades das nossas ações.
É por isso que falo da importância do autoconhecimento tanto para entendermos a nós mesmos, quanto para compreender o mundo em que vivemos, porque, no final das contas, é tudo uma coisa só. Então vamos entender um pouco sobre como essa relação se constrói:
Nós, humanos, somos criaturas sociais. Nossa estratégia reprodutiva e comportamental nos levou a adotar a formação de grupos, pois como nascemos com o corpo subdesenvolvido, nossa sobrevivência depende totalmente daqueles que nos cuidam. Precisamos de alguém que nos alimente, nos proteja, e nos ensine a viver ao longo de muitos anos.
Eventualmente constituímos sociedades, cujos padrões e conhecimento formam a cultura e tradições locais, e as funções são divididas em diferentes trabalhos. A dependência que temos uns dos outros torna imprescindível que sejamos aceitos dentro da comunidade, e é por isso que parte da nossa programação genética ao nascer é toda voltada para a absorção e imitação do que observamos ao nosso redor. Os neurônios-espelho são os principais responsáveis por isso.

Conforme vamos repetindo as ações das pessoas ao nosso redor, integramos os aspectos considerados positivos e reprimimos os ditos negativos. Se formos elogiados, premiados ou recebidos com alegria, reforçaremos as ações que levaram a isso. Se formos criticados, punidos ou recebidos com desprezo, tentaremos evitar o máximo possível o que nos trouxe esses resultados.
Tudo isso para sermos incluídos no sistema do qual dependemos. Esse acolhimento nos traz todo tipo de benefício, desde ter uma família que nos ajudará em momentos difíceis, a oportunidades de emprego, privilégios sociais e bons relacionamentos, pessoais ou profissionais. E, obviamente, qualquer “desvio” do que é socialmente aceito será uma pedra no sapato ou potencialmente fatal.
Porém, não basta você se adequar aos padrões estéticos e comportamentais. Você deve ser também alguém produtivo, ou então não terá valor e, consequentemente, os benefícios da aceitação social. Mais ainda, deve obedecer à estrutura hierárquica que permeia cada área da nossa vida, pois rebelar-se pode causar problemas sérios.
Todas essas coisas se acumulam na nossa psique, onde fazemos malabarismos para tentar seguir tudo à risca. Entretanto, a complexidade da rede social e da vida tornam virtualmente impossível fazer tudo o que nos é ensinado sem que isso cause estresse e feridas ao longo do caminho. Muitas pessoas eventualmente se tornarão ressentidas, frustradas ou se sentirão castradas e infelizes pelo simples fato de não terem conseguido se inserir – ou manter – no mainstream da comunidade.
E o pior: não saberão o porquê de se sentirem assim.
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Com isso tudo, podemos perceber o quanto o olhar do outro é decisivo, como ser visto de maneira negativa ou enviesada pode custar muito caro para nossa sobrevivência e qualidade de vida. Nossa autoimagem, portanto, reflete muito a nossa visão de mundo, nosso passado e a maneira como fomos criados, para o bem ou para o mal, na nossa confiança ou insegurança, na tentativa de se encaixar e sermos aceitos.
Então, para dissolver nossas percepções nocivas e alcançar nossos objetivos e felicidade, precisamos entender os mecanismos que foram “implantados” na nossa mente e como o mundo funciona.
O primeiro passo é questionar-se. Se perguntar o porquê das suas próprias opiniões sobre si mesmo. O porquê você se comporta de determinada maneira, o porquê reage de forma específica. O porquê dos seus desejos, os motivos e onde nasceram. E esse questionamento se expande para o mundo, para o sistema, para a vida como um todo.
Quero deixar claro, também, que tais respostas não serão simples de encontrar – e principalmente, que não há “certo” ou “errado” aqui, e muito menos uma solução que não foi influenciada de alguma forma pelo mundo. Seguir o padrão da sociedade é, obviamente, um reflexo de condicionamento que nos foi imposto, mas rebelar-se a ele não cai muito longe da árvore também.
Por esse motivo, quero frisar aqui que julgamentos não trazem nada de bom. Muitas vezes optamos por fazer o que o “mundo pede” em prol da nossa felicidade, e mesmo isso pode ser a escolha correta, por mais que pareça contraditório. Nem sempre teremos tempo, energia e oportunidade para quebrar certos ciclos.
Outro passo muito útil é observar. Ver o quanto que o status quo cria um padrão “ideal” que não inclui a esmagadora maioria das pessoas. Perceber o quão diverso é o ser humano em seus corpos e estilos, e que há beleza e valor em absolutamente todos – você incluso. Lembrar que as regras de beleza e conduta variam de povo para povo, e de época para época.
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Enfim. Este é um tópico que se desdobra por quilômetros, mas hoje gostaria apenas de largar essa semente para você… refletir. Refletir tanto na mente, ao estimular os neurônios a pensar por si mesmos e enxergar os mecanismos do mundo e da sociedade, mas também refletir no espelho, onde você enxergará muito de si, seja externa ou internamente.
Olhe para o espelho e lembre que beleza e valor são determinados por um sistema que tem segundas intenções. Lembre que você tem um passado e contexto de vida único e complexo, que só você sabe o quanto carrega e ninguém pode julgar plenamente a estrada por onde você anda. Lembre que séculos de história e ancestralidade pavimentaram seu nascimento e oportunidades de crescimento.

Você é responsável pelas suas escolhas, mas tais escolhas foram, são e ainda serão influenciadas por tudo o que há à sua volta. Quanto mais consciente você se tornar da teia social que forma a sua individualidade, mais capaz você será de caminhar uma trilha mais feliz e realizadora.
E isso começa com uma pergunta: o que você vê no espelho?
