Fusion Bellydance: Criatividade & Cultura

The Indigo, grupo de Rachel Brice, Mardi Love e Zoe Jakes. Fonte: Wikidança

Última atualização: 01/07/2026

Para quem nunca ouviu falar, o Fusion é um estilo de Dança do Ventre que mistura influências étnicas e contemporâneas, e também é chamado de Tribal Fusion, Estilo Tribal, Fusão Étnica, Transnational Fusion ou Transcultural Dance! E para quem já conhece, talvez não tenha noção do quão diverso ele é.

A flexibilidade criativa do estilo o torna extremamente flexível e mutável, diluindo as fronteiras de classificação e identidade. Por isso que é uma dança tão complicada de descrever, ou mesmo entender. Diferente da Dança do Ventre, que evoca uma imagem mais definida (ainda que estereotipada), o Fusion é mais difícil de visualizar. E é justamente sobre essa dança que quero falar hoje!

Contexto histórico

Precisamos lembrar que a dança é uma arte efêmera. Enquanto não surgiam as câmeras, os registros são raros: relatos de viajantes e pinturas estáticas, que pouco dizem sobre movimentos. Por isso, é difícil ter certeza de como danças eram executadas há séculos atrás.

Além disso, há o orientalismo, termo cunhado por Edward Said para descrever o registro de culturas orientais pelo olhar ocidental, marcado pela colonização e por estereótipos que ainda existem hoje. O Oriente é visto como exótico, primitivo ou vulgar, e isso contamina muitas fontes. Recomendo o trabalho do coletivo Hunna, que busca uma visão mais crítica e limpa.

Sadie Marquardt. Fonte

É essencial lembrar que cultura é viva e está em constante transformação. Não existe dança “pura” ou “original”. A própria Dança do Ventre atual tem influências do Ballet e de danças andaluzas, por exemplo, e veremos que ela e até mesmo o Folclore foram “construídos” muito recentemente.

Por fim, a escassez de registros e o orientalismo alimentaram vários mitos, como a origem no Antigo Egito, a função de auxílio ao parto, rituais para a Deusa ou o caráter essencialmente sedutor e feminino da dança.

Ghawazee. Fonte.

A construção da Dança do Ventre moderna

A imagem da bailarina com figurino de duas peças, movimentos sinuosos e elegância foi criada no início do século XX! A responsável foi Badia Masabni, que moldou a dança para o palco e o entretenimento elitizado. Antes disso, a dança era mais ligada à cultura popular e a povos ciganos, em especial as Ghawazee.

Mesmo as manifestações folclóricas não escaparam disso. Mahmoud Reda, pai do Folclore Árabe, também adaptou danças populares para o palco, com incentivo do governo egípcio para fins nacionalistas. Ou seja: o que vemos no palco não é exatamente o que se via nas ruas ou séculos atrás.

Com isso, vemos que não existe “pureza” cultural. O que há são influências, estereótipos e narrativas. O importante é respeitar as fontes e buscar conhecimento para evitar apropriações opressoras ou esvaziamento simbólico.

E o Fusion nisso tudo?

Lá pela década de 60, a bailarina estadunidense Jamila Salimpour foi pioneira em sistematizar e nomear passos do repertório da Dança do Ventre, criando um método didático. Sua filha, Suhaila, incorporou técnicas de outros estilos, ampliando o repertório e seguindo os passos da mãe com a Dança do Ventre.

Em 1970, Jamila criou o grupo Bal Anat para apresentações em feiras renascentistas. Embora sua intenção fosse de representar a cultura árabe o mais fiel possível, o público ocidental, mais diverso e dinâmico, fez com que ela precisasse diversificar as performances, o que abriu caminho para as misturas que viriam a definir o Fusion. Alunas experimentaram com elementos circenses, teatrais e de diversas culturas, num contexto de Contracultura. Hoje nós questionamos e cuidamos mais o uso de elementos de outras culturas, pra evitar e perpetuação de apropriações e estereótipos, mas naquela época, experimentar e utilizar tudo que é coisa de outros povos era comum e até mesmo revolucionário.

Jamila Salimpour. Fonte.

Vale lembrar que bailarinas egípcias da Era de Ouro já inseriam elementos modernos e circenses em suas apresentações, ou seja, a mistura e inovação não são uma exclusividade ocidental.

Entre as alunas de Jamila, destacam-se Masha Archer, Katarina Burda e John Compton. Masha ensinou Caroleena Nericcio, que criou o American Tribal Style® (ATS®), uma dança de improviso coordenado que fusionava Dança do Ventre, Flamenco e Danças Clássicas Indianas, que é considerado um dos pilares do Fusion moderno. Hoje, o nome oficial ATS® caiu e foi substituído por FatChance Bellydance Style® (FCDB Style®).

Jill Parker, aluna de Caroleena, saiu do grupo e desenvolveu um estilo mais coreografado, com influências do Cabaret, sendo considerada a “mãe” do Tribal. Rachel Brice, talmbém aluna de Caroleena popularizou o estilo mundialmente com o Bellydance Superstars. Mas nomes como Zoe Jakes e Mira Betz também são grandes pilares do Fusion, mas que não “passaram” pelo ATS®.

Hoje, o Fusion é uma dança híbrida cujos pilares incluem Dança do Ventre, Flamenco, Danças Clássicas Indianas e Danças Urbanas.

Caroleena (centro) e grupo de FCBD Style. Fonte
Coleena Shakti. Fonte

Subgêneros e a fluidez do estilo

Essa miscelânea gerou subgêneros como Indian Fusion, Urban Fusion, Interpretative, Ritualistic e o Tribal Brasil. Também há o Dark Fusion (gótico) e o Metal Bellydance, que desafiam qualquer tentativa de definição rígida.

Por anos, tentei entender como classificar o Fusion, mas sempre esbarrava em performances que escapavam a qualquer tentativa de definição. A comunidade também passou por isso, criando e recriando definições, o que só gerou confusão e segregação.

Hoje, caminhamos para a ideia de que “It’s all Bellydance” (“É tudo Dança do Ventre”). O estilo é democrático, flexível e com potencial criativo infinito. Até os nomes estão em transformação: “tribal” cada vez mais cai em desuso, e “Dança do Ventre” também é questionado. Não sei qual será o consenso final, mas seguimos dançando e criando.

No meu antigo canal do Youtube você encontra playlists que ilustram a história do Ventre e do Fusion (aqui, aqui e aqui!), e uma onde juntei uma série de vídeos que englobam ambos os mundos. Possivelmente irei incluir mais no futuro.

Original publicado em 21/09/2022


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