
Para quem nunca ouviu falar, o Fusion é um estilo de Dança do Ventre de fusões étnicas e contemporâneas, também conhecido por Tribal Fusion, Estilo Tribal, Fusão Étnica, Transcultural Dance ou ainda Transnational Fusion! E pra quem já conhece, talvez você não tenha noção do quão diverso é este estilo de dança, ou o quanto podemos usá-lo para expandir discussões e questionamentos para além da técnica.
E para “piorar”, sua flexibilidade criativa o torna extremamente mutável ao longo do tempo e dilui as fronteiras de classificações e identidade expressiva. Certamente a minha descrição acima não lhe ajudou a ter uma imagem representativa na mente, né? Diferente do caso da Dança do Ventre, onde teremos alguma referência, ainda que estereotipada.
Sendo o Fusion um dos pilares do meu laboratório Dharma Fusion, hoje lhes trago um pouco de tudo sobre essa dança! Começando com um resumo histórico desde a Dança do Ventre, pois isso nos ajudará a entender melhor a essência desse estilo e suas definições.
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Primeiramente, temos que entender algumas coisas com relação a registros históricos. No caso da dança, uma arte efêmera, antes do advento das câmeras as informações são bastante escassas. Em geral, descrições feitas por viajantes ou pinturas estáticas, e em ambos os casos não há muito sobre os movimentos e técnicas. Portanto, é difícil se ter qualquer certeza de como danças eram de fato executadas há séculos ou milênios atrás.
Segundamente, devemos levar em consideração o fenômeno chamado orientalismo. Cunhado por Edward Said, o termo se refere aos processos de registro de culturas orientais feita pelo olhar ocidental, e que está intrinsecamente ligado à colonização e invasão de povos do Oriente Médio, que culminou em percepções estereotipadas e preconceituosas de culturas diferentes da ocidental europeia do século 19.
Infelizmente, isso ainda está muito enraizado no ocidente, que vê a arte e cultura oriental como “exótica”, “milenar”, “primitiva” ou “vulgar”, e isso frequentemente está presente em fontes de conhecimento. Gostaria de indicar o trabalho do coletivo Hunna, bailarinas e historiadoras que sabem muito a respeito disso e estão ativamente trabalhando pra nos trazer uma lente mais limpa.
Terceiramente, devemos lembrar que “cultura” é algo vivo e mutável. Expressões tradicionais mudam com o tempo, perdem, ganham ou modificam elementos e crenças, e absorvem manifestações de outras fontes as quais tiveram contato. Não existe uma dança “original”, “pura” ou sequer “correta”, pois se olharmos de perto, veremos diferentes influências em algo que pensávamos ser “tradicional”. Inclusive, a Dança do Ventre atual tem influências do Ballet Clássico e danças andaluz, por exemplo.

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A esmagadora maioria de nós terá como referência de bailarina oriental árabe a imagem de uma bela mulher dançando com um figurino de duas peças, ricamente bordado, com movimentos sinuosos de quadril e muita elegância, não?
Eis que essa figura, na realidade, foi deliberadamente criada no início do século 20! Badia Masabni, artista e empresária, ativamente moldou a Dança do Ventre para um formato mais glamuroso, voltado para o espetáculo, o palco e o entretenimento de um público mais elitizado, sendo considerada a criadora desta dança como a percebemos hoje.
Antes disso, as manifestações se davam primariamente através da cultura popular e de povos ciganos, em especial as Ghawazee. E aqui a história ocupa séculos e mais séculos de estrada, passando por muitos países do Oriente Médio e regiões próximas, vivendo governos com tolerâncias e entendimentos diferentes, culturas com tradições diversas e todo tipo de opinião.
Assim, a escassez de registros históricos, somado ao orientalismo, acaba criando ou alimentando mitos como a ideia de que a Dança do Ventre surgiu no Antigo Egito, que é intrinsecamente sedutora ou que sua função era o auxílio no parto.

Agora, talvez você queira se ater às manifestações folclóricas como fonte de tradição, originalidade ou pureza, mas sinto dizer-lhe que nem mesmo isso escapou destes processos. Mahmoud Reda é considerado o pai do Folclore Árabe, tendo se aprofundado em danças e comportamentos populares do Egito no século 20.
Entretanto, por mais que a intenção fosse representar a cultura tradicional do país, as danças também foram moldadas para o palco e o entretenimento, inclusive havendo forte incentivo do governo para estimular o nacionalismo. Ou seja, o que você vê em uma apresentação folclórica não é exatamente o que você veria in situ ou séculos atrás.
Moral da história: não existe nada em uma manifestação cultural que seja “puro”, que não tenha recebido alguma influência externa ou que tenha perdurado imutável por séculos. Estereótipos e preconceitos nascidos do Orientalismo moldam e distorcem a nossa percepção de cultura, arte e narrativa histórica.
Não existe um jeito “certo” ou “errado” de dançar ou criar. A única coisa que precisamos fazer é, ao lidar com fontes de culturas diferentes da nossa, ter respeito e buscar conhecimento sobre, para evitar a continuidade de apropriações baseadas em opressão e esvaziamento simbólico. Coisas que, como sociedade, ainda engatinhamos para entender e praticar.
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E o Fusion, onde entra nisso tudo?
Embora tenha havido uma época em que a comunidade tentava se definir como algo à parte, é inegável que a principal raiz deste estilo é, de fato, a Dança do Ventre. A responsável por plantar a semente do que viria a ser o estilo “tribal” foi Jamila Salimpour! Bailarina e professora americana, foi a primeira que buscou sistematizar e nomear os passos da dança árabe, combinações de toques de snujs e a criar um método didático de ensino.
Suhaila, sua filha, seguiu seus passos e estudou diversos outros estilos de dança, incorporando técnicas mais refinadas nos movimentos, incrementando ainda mais o repertório. O clã Salimpour tem uma enorme importância e influência na Dança do Ventre atual, mas infelizmente não costumam ser citadas no meio, sendo majoritariamente reconhecidas dentro do escopo do Fusion.
Em 1970, Jamila criou seu grupo de dança, Bal Anat, para um melhor controle das apresentações nas feiras renascentistas que estavam em alta na época. Embora ela admirasse a cultura oriental e buscasse criar performances baseadas em folclore, para que as pessoas tivessem uma vivência “autêntica” daquela arte, a natureza do público ocidental é bem mais diversa e dinâmica. Isso fez com que houvesse um maior estímulo, ou necessidade, de variedade e criatividade nos shows, o que abriu caminho para as misturas que formariam a essência do Fusion.
Alunas de Jamila começaram a experimentar e a inserir elementos de culturas diversas, circenses e teatrais, tudo em meio à época da Contracultura, com suas transgressões, questionamentos, criações e apropriações culturais. Isso envolvida tanto técnicas de movimentos, como também vestimentas, acessórios e símbolos de todo tipo.

É interessante ressaltar que, apesar das questões que, hoje, percebemos como problemáticas no âmbito de utilização cultural, o Fusion não surgiu simplesmente de uma mistura americana sem rédeas. Por exemplo, na Era de Ouro egípcia, bailarinas famosas de Dança do Ventre por vezes inseriam elementos circenses ou expressões mais modernas em suas estilizações, para criar variedade e estilo. Assim, o que Jamila fazia não estava longe do solo árabe “tradicional”.
Dentre as principais pupilas de Jamila, podemos citar Katarina Burda, Masha Archer e John Comptom, seu primeiro aluno homem. Comptom eventualmente criou um grupo próprio, o Hahbi’Ru, que seguiu os passos de sua mestra e manteve suas apresentações similares ao estilo dela. Burda foi professora de duas expoentes mais recentes, Mira Betz e Zoe Jakes.
Masha Archer foi professora de quem consideramos uma das principais raízes do Fusion: Caroleena Nericcio! Esta desenvolveu e estruturou uma dança de improviso coordenado chamada American Tribal Style® ou ATS® (hoje FatChanceBellyDance Style® ou FCBD Style®), que fusionava Dança do Ventre, Flamenco e Danças Clássicas Indianas, e rapidamente se popularizou no meio alternativo.

Uma das alunas de Caroleena, Jill Parker, saiu de seu grupo e voltou a construir performances baseadas em coreografia e retomou influências do Cabaret, sendo considerada a “mãe” do estilo Tribal. Logo suas alunas e demais colegas foram expandindo as fontes de técnica, incluindo danças urbanas, e a estética e “exoticidade” do Fusion tomou o mundo. Rachel Brice foi uma das grandes responsáveis pela popularização mundial do estilo, graças à sua participação no Bellydance Superstars, espetáculo internacional de danças do Ventre e fusões.
Com isso, temos uma ideia, ainda que bastante resumida e simplificada, da jornada do estilo Fusion. Hoje compreendemos que é uma dança híbrida cujos principais pilares são a Dança do Ventre, o Flamenco, Danças Clássicas Indianas e Danças Urbanas, absorvendo não apenas a técnica destas artes, mas suas estéticas, expressões e por vezes simbologia.
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Porém, contudo, entretanto, todavia… a flexibilidade criativa e riqueza cultural desse estilo fez com que suas manifestações explodissem no mundo e desenvolvesse todo tipo de combinação. Bailarinas começaram a dar mais ênfase em algum dos pilares, inserir outros tipos de dança, associar a outras tribos e culturas, experimentar com estética, teatro e espiritualidade, e a buscar um estilo próprio.
Isso fez com que vários “subestilos” ou “subgêneros” do Fusion fossem cimentando sua presença. Por exemplo, temos o Indian Fusion, que sublinha o pilar das Danças Clássicas Indianas; o Urban Fusion, focado nas tribos urbanas; o Interpretative, que dialoga com o teatro; o Ritualistic, que enfatiza a espiritualidade; e também o nosso Tribal Brasil!

A Dança do Ventre também tem suas modernidades e fusões, que serão inerentemente diferentes do estilo Fusion, mas que por vezes podem dialogar com e nos fazer questionar onde estaria o “limite” entre ambos os casos. E a realidade é que: não há!
Gosto de citar o Dark Fusion, o “tribal gótico”, como exemplo destas questões. Esse subgênero, criado por Ariellah, é basicamente o estilo Fusion somado à cultura gótica. Tecnicamente, é diferente da Dança do Ventre gótica, mas ambos têm suas similaridades por questões óbvias. Incluir o Metal Bellydance então, é pra enlouquecer a mente que tenta definir arestas nítidas entre essas expressões.
Por vários anos tentei entender exatamente como definir o estilo Fusion, e embora haja muitos e muitos vídeos por aí que são facilmente classificáveis, topei diversas vezes com performances que me enchiam de interrogações. E a própria comunidade passou por isso, criando e recriando definições da dança e listando as características que deveriam estar presentes pra ser nomeada como tal.
Porém, hoje vemos que isso só gera confusão e segregação. Cada vez mais estamos indo em direção à aceitação de que “It’s all Bellydance”, e que é um estilo extremamente democrático, flexível, e com um potencial criativo virtualmente infinito.
Inclusive, as nomenclaturas diversas refletem as discussões atuais sobre apropriação cultural e termos pejorativos. O termo “tribal” já está caindo em desuso, e mesmo “Dança do Ventre” está sendo questionada. Não sei ao certo se vamos chegar a um consenso ou qual será o nome escolhido. Possivelmente novos “agregados” irão se cimentar no meio e receber a nomenclatura que melhor lhe cabe.
No meu canal do Youtube você encontra três playlists que ilustram a história do Ventre e do Fusion, e mais uma onde juntei uma série de vídeos que englobam ambos os mundos. Possivelmente irei incluir mais no futuro. 😉
