Solve et coagula, Coagula et Solve

Photo by Elena Mozhvilo on Unsplash

Última atualização: 01/07/2026

O conceito de “solve et coagula” (dissolve e coagula, em latim) é um princípio central da Alquimia e do Hermetismo, que pode ser percebido de duas formas: literal, que são os processos químicos, onde se alterna entre a dissolução de uma substância em seus componentes básicos (solve) e recombinação em uma nova forma sólida (coagula); e simbólico, onde temos os processos psicológicos, que remetem a dissolução do ego e coagulação de uma nova identidade mais sábia após a purificação.

Também podemos usar o conceito em filosofias mais amplas, que falam sobre ciclos da natureza: criação e destruição. Já dizia Lavoisier, pai da química moderna: “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Eu não me considero alquimista nem hermetista, porém gosto bastante de usar alguns de seus conceitos e simbolismos. Por exemplo, pra eles, o objetivo era conseguir a Pedra Filosofal e o Elixir, que seriam substâncias lendárias capazes de oferecer benefícios tremendos (transmutação do ouro, longevidade, perfeição espiritual), através da Grande Obra.

A Grande Obra nada mais é que o processo de transmutação, de “evolução”, que foi dividido em 4 etapas: Nigredo (dissolução), Albedo (purificação), Citritinas (despertar) e Rubedo (coagula).

Trazendo o assunto pro cotidiano, não é novidade pra ninguém que a vida é cheia de altos e baixos, desvios e retornos, conflitos e uniões. Isso está presente em literalmente tudo à sua volta, externamente e internamente, e o conceito “solve et coagula” fala exatamente sobre isso, assim como podemos dizer que nossas vidas são uma jornada de transmutação, uma Grande Obra.

Mas, pra chegar ao sonhado resultado, é preciso estar consciente e trabalhando ativamente nesse processo todo, porque do contrário, podemos ficar pra sempre estagnados numa mesma etapa.

Foto de David Valentine na Unsplash

E é aqui que entra a importância da autoanálise. Quando buscamos o autoconhecimento, começamos a perceber padrões nas nossas vidas, os processos por trás deles, e conseguimos ferramentas e informação pra poder fluir melhor nessa montanha-russa que é a Vida.

Puxando a brasa pro meu lado, faz muitos, muitos anos que percebi um padrão cíclico na minha vida: eu inicio alguma coisa, passo um tempo investindo nela, mas em algum momento eu “perco o fio da meada”, ou acontece algo na vida que força um desvio ou parada. Aí quando eu quero retomar o que eu tinha começado, é como se eu não soubesse como.

Dúvidas surgem, percebo problemas ou melhores formas de abordar a questão. Fico presa em decisões sobre detalhes, questionamentos sobre o propósito e como desenvolver. Tudo isso junto de uma sensação de querer “apagar tudo e começar do zero”. Seria perfeccionismo? Não sinto que é puramente uma tentativa de fazer melhor, mas sim que o fluxo se quebrou e preciso fazer de novo.

Imagine que você está lendo um texto. Esse texto tem um fluxo de ideias. Se você se distrair, por exemplo, pode “perder o fio da meada” e tenha que retomar a leitura a partir de um pedaço que já leu. Isso é necessário pra você entender o que está sendo dito. Você não volta pro começo do texto pra “ler melhor”, mas simplesmente pra retomar o raciocínio.

É o que acontece comigo de tempos em tempos, em várias coisas na vida, mas também aqui, neste blog. O site como um todo já sofreu vários “resets”, por conta desse sentimento de desconexão. Fora que eu gosto de brincar com o design e aparência. :p

Independente de qualquer coisa, esses retornos sempre trazem novas perspectivas e descobertas. Por exemplo, no texto original, eu menciono uma metáfora visual que usei por muito tempo: o caldeirão de conhecimento. Imaginava que minha mente era um caldeirão, e as vivências e informações eram como ingredientes sendo picados ali dentro.

Porém, o “fogo” não estava aceso, ou seja, eu estava apenas “recebendo” conhecimento, sem processá-lo (cozinhá-lo). As diversas “reformas” do site eram como tentativas de criar faíscas que o acendessem. Quando escrevi o post, eu já sentia que tinha conseguido, embora o fogo ainda estivesse bem tímido.

Comecei a compreender melhor pra onde se direcionava a minha Jornada, e hoje, atualizando este texto, percebo que a metáfora do caldeirão também se atualizou: agora vejo que o fogo está pleno, cozinhando os ingredientes numa “Grande Sopa”. Eu não teria percebido essa evolução se não tivesse retornado ao post original.

Mas como nem tudo são flores, eu ainda não sei qual o “sabor” dessa sopa. Ou seja, minha bagagem interna está sendo processada, mas ainda não está pronta pra consumo. É uma carga de sabedoria acumulada que ainda não absorvi.

Esse cozimento interior se traduziu na minha vida, dentre outras coisas, num isolamento, que começou antes mesmo da Pandemia. A obra-múltipla “Casulo” reflete esse período. Inclusive, isso puxa mais um conceito alquímico: o vaso hermético.

Também chamado de Ovo Filosófico, é considerado o “recipiente” pra que a Grande Obra aconteça. O intuito é literalmente isolar do mundo, impedindo a entrada de impurezas, permitindo que a matéria se transforme por si mesma. É fácil correlacionar esse simbolismo com a pupa de uma borboleta – um casulo – que basicamente fala daquele processo onde precisamos ter paciência e fé.

Foto de Daniel Jericó na Unsplash

Mas e você? Que ciclos você vive ou percebe na sua vida? O que você sente que flui, e o que sente que está “patinando no mesmo lugar”?

Original publicado em 07/08/2022


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