
Hoje em dia, o tópico ‘saúde mental’ está mais na moda do que nunca, o que traz muitas coisas, tanto boas quanto ruins. E nesta era em que qualquer desabafo pode topar com o conselho ‘busque terapia’, nos vemos num mar de opções quando resolvemos seguir a dica. Não apenas há diversos tipos de terapias – tradicionais, alternativas, integrativas, holísticas – como mesmo dentro do mundo da Psicologia um monte de vertentes se desdobram. Psicanálise, psicoterapia, psicologia analítica, TCC, abordagens humanistas, Gestalt…
Como saber qual caminho serve pra você?
Tecnicamente, não há como saber de antemão. Infelizmente, o negócio é tentativa-e-erro. Geralmente, o processo pede um vínculo mínimo entre o paciente/cliente e o terapeuta (o que pode ser difícil de encontrar e leva tempo), e além disso, o profissional pode ou não ter condições de tratar o seu caso – ou ainda, a abordagem que ele utiliza talvez não lhe ajude.
Por isso, entender a natureza de cada prática se tornou quase uma necessidade — especialmente quando falamos de Arteterapia, que muita gente ainda imagina ser só ‘atividade artística para relaxar’.
Obviamente que o simples ~fazer arte é capaz de trazer vários benefícios para a mente e o coração, mas é um contexto muito diferente de quando você busca ajuda pra lidar com questões internas. Criar uma arte (algo terapêutico) é diferente de comunicar um sofrimento a um terapeuta no intuito de receber auxílio especializado (fazer terapia).

Nos campos da psiquiatria e psicologia, por exemplo, o carro-chefe da comunicação é verbal, ou seja, nos expressamos através das palavras, da fala, com processos cognitivos de narrativas lineares e racionais. Claro, palavras podem carregar emoções densas e comunicar plenamente o que se sente (pense na poesia, por exemplo), mas… há momentos em que elas falham.
Emoções que se manifestam no corpo, memórias que escorrem entre os dedos da mente, desejos que não sabemos nomear, imagens que inundam nossa cabeça e não conseguimos descrever. E é aí que a arte — com sua linguagem subjetiva, imagética, simbólica e intuitiva — pode se tornar uma ponte.
Arteterapia: A profissão
Vamos às formalidades:
A arteterapia é uma prática profissional fundamentada em estudos das artes, da psicologia, da pedagogia e outras mais. Ela se estrutura como um campo interdisciplinar e é reconhecida por conselhos de classe (como o de psicologia) como prática integrativa. No Brasil, a arteterapia é regulamentada por associações como a UBAAT e outras regionais, que estabelecem critérios de formação e ética profissional.
O arteterapeuta é alguém que passou por uma formação específica, com vivência em processos criativos, fundamentos teóricos e práticas de atendimento. Não se trata de ‘aulas de arte’, mas de sustentar um espaço simbólico onde o outro possa se expressar com liberdade, acolhimento e escuta.
Você pode saber mais no site oficial da UBAAT: https://www.ubaat.com.br
Matéria como espelho: o uso dos materiais
O potencial que uma imagem ou símbolo tem como expressão comunicativa me fascina, mas se tem algo que também me encanta muito na arteterapia é o uso de diferentes materiais pra prover diferentes experiências. Argila, lápis, papel, tecido, tinta, sucata, colagens, corpo, música, dança, voz, teatro, escrita, fotografia, arte digital… absolutamente tudo se torna linguagem, e cada mídia proporciona algo que outra talvez não traga.

Nós, arteterapeutas, não usamos os materiais ao acaso. A gente observa a pessoa e considera sua demanda e condição, e com isso escolhemos os meios expressivos que possam facilitar o contato com o que está sendo vivido ou requerido. Às vezes é preciso conter, estruturar; outras vezes, liberar, desconstruir. O importante não é o resultado estético, mas o processo: o que acontece durante a criação, o que emerge da imagem, o que toca, o que chama a atenção.
Então quer dizer que Arteterapia é basicamente Psicologia com Arte? Não!
Arteterapia não é psicologia — mas se encontram
Embora dialoguem bastante, em essência os métodos e objetivos são distintos. Na psicologia, o principal instrumento é a fala, a linguagem verbal, e toda técnica foca na investigação psíquica através do que a pessoa nos conta. Já na arteterapia, o processo criativo é o centro, com a produção artística sendo a expressão da linguagem não-verbal. Claro que, mesmo no contexto arteterapêutico, haverá muita escuta e o acolhimento da linguagem verbal, mas que será somada às vivências e não terá técnicas especificamente psicoterapêuticas nela.
Psicólogos podem ser arteterapeutas, e arteterapeutas podem ser de outras áreas, desde que tenham formação ética e adequada.
A abordagem junguiana: o símbolo como guia
Uma das principais abordagens dentro da arteterapia é a junguiana. Baseada na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, ela entende que o inconsciente se comunica por símbolos — imagens que carregam múltiplos significados e atuam como pontes entre a consciência e o mundo interno.
Na arteterapia junguiana, cada criação é vista como manifestação do Self, do arquétipo, da sombra, dos complexos… enfim, tudo o que compõe “você”. Mandalas, contos, mitos e imaginação ativa também são recursos simbólicos recorrentes, que ajudam a dar sentido à jornada interna.
Não interpretamos as imagens com fórmulas prontas ou dicionários de significados, mas acompanhamos a pessoa em seu processo de diálogo com a própria alma. Gosto de dizer que a linguagem do inconsciente é simbólica e, principalmente, subjetiva – ou seja, é uma comunicação exclusiva sua.
O que pode ser trabalhado na arteterapia?
A arteterapia não é um “tratamento artístico” para problemas emocionais. É um caminho de expressão, integração e transformação psíquica. Ela pode ser usada para:
- lidar com ansiedade, estresse, depressão, luto, traumas;
- explorar bloqueios criativos e existenciais;
- atravessar momentos de transição (separações, mudanças, crises);
- ampliar o autoconhecimento;
- dar voz ao que está no inconsciente.
É especialmente útil para quem tem dificuldade em verbalizar emoções ou para quem sente que precisa acessar outras formas de compreensão além da racionalidade.
Criar é lembrar de si

No fundo, toda arteterapia é um ato de reconexão. Re-conectar com o corpo, com a intuição, com as emoções, com a história que habita no fundo do peito. Criar não é fugir da realidade, é torná-la habitável. É dar forma ao indizível, e encontrar — entre traços, texturas e gestos — uma nova forma de se estar no mundo.
Se algo em você pulsa, mas ainda não encontrou palavras, talvez a arte possa falar por você. E eu, como arteterapeuta, estou aqui para escutar. 😀
